segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

AS ANEDOTAS DO JOAQUIM
 
Por Joaquim A. Rocha






Dois empregados de uma pastelaria. Um deles era gago. Chegou um cliente, e o gago, como era mais antigo naquele emprego, chama a atenção do outro:

- Ma.nu.el…. Sér.vio…

- O Manuel, pensando que o gago lhe estava a dar uma ordem, diz-lhe bruscamente:

- Serve-o tu.

                                                                   Dezembro de 2017.

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     A esposa do Tónio do Regueiro andava muito preocupada por o marido beber cada vez mais vinho.

- Ó homem, tu assim vais ficar doente. O teu fígado já deve estar uma desgraça; ao menos vai ao médico e faz análises.

- Ó mulher: tu não deves ver e ouvir a televisão! Depois da seca e dos incêndios todos os santos dias nos pedem: poupem a água, ela é um bem precioso e escasso. Eu não resisto a esse apelo, estou apenas a colaborar.
    

                                                                                  Dezembro/2017

sábado, 9 de dezembro de 2017

LINA - FILHA DE PÃ
(romance)

                                                                                             Por Joaquim A. Rocha



desenho de Rui Nunes
 
4.º capítulo (continuação)

     O relógio do tempo inexoravelmente foi marcando os segundos, os minutos... O juiz andava radiante. A sua namorada morrera, como fora previsto, ficara completamente livre. Tinha agora a amante jovenzinha, satisfazia-lhe todos os desejos, todos os caprichos, era a sua escrava, só esperava que não engravidasse, aí é que as coisas fiariam mais fino. Um dia, à hora do almoço, a Lina dirige-se ao patrão/amante e diz-lhe:

 - Meu amor, este mês não me veio o período, se calhar estou prenha.

- Santo Deus, isso não é nada bom. Estamos perante um mau agouro. Espera mais algum tempo, pode ser uma falha natural, a gente tem abusado um pouco nas relações, é melhor abstermo-nos durante uns dias.

- Eu adorava ter um filho seu. Com um pai assim, tão perfeito, tão inteligente, até dá gosto ter uma criança.

- Não vinha na melhor altura. Faço votos para que não estejas grávida. Se estiveres, tens de arranjar alguém que te faça o aborto. Eu dou-te o dinheiro.

     Ela olhou para o amante e começou a chorar. Lavada em lágrimas, diz-lhe com convicção:

- Não quero fazer nenhum aborto. O bebé há-de nascer. Nem que eu tenha de fugir para bem longe, para a serra, ou mesmo para o estrangeiro.

     Ele ficou furioso com essas palavras. Os seus olhos chisparam de raiva, tornando medonha a sua fisionomia.

- Tu estás doida, ou quê? Achas que eu permitiria que tivesses uma criança minha? Nunca! Ouviste? Nunca!

     Ela chorou copiosamente. Abraçou-se aos joelhos do seu senhor, pedindo-lhe que deixasse vir ao mundo, o fruto daquele gigantesco amor. Ela ficaria com a menina ou menino, não diria a ninguém que era dele.

     Ele ficou pensativo. Ela acabara de lhe dar a chave da solução, sem correr quaisquer riscos.

- Está bem, se estiveres grávida não abortarás. Confirma a gravidez.

     Passou mais um mês e nada de menstruação. Estava de facto grávida. Uma noite, ao jantar, ela diz-lhe, com algum receio:

- Não há dúvida nenhuma: estou de esperanças.

     Ele já tinha pensado em tudo. O seu plano não falharia.

- Tudo bem. A partir de agora vais cumprir escrupulosamente tudo aquilo que eu te ordenar para fazer. Em primeiro lugar aceitas o namoro daquele pelém que por aqui passa todos os dias para te ver.

     Ela rapidamente faz a lista dos seus pretendentes e diz:

- Mas esse é o mais feio de todos!

- O mais feio e o mais tolo. Trazes o palerma aqui para a garagem, tens relações com ele, e daqui a um mês dizes ao sonsinho que estás grávida. Como és menor, ele terá de casar contigo. Disso trato eu.

     Ela ficou pensativa. Ter de ir para a cama com aquele idiota, beijá-lo, suportar aquele cheiro da brilhantina… Se ainda fosse o Tónio, uma bonita figura de rapaz… Mas por aquela vida que ainda havia de nascer valia a pena sacrificar-se. O Senhor Doutor nunca admitiria ser pai da criança. E quem era ela para o enfrentar? A força estava do seu lado, nada havia a fazer. Podia ser que ele a conservasse como criada, que continuasse a ser seu amásio, aquele parvo não se aperceberia de nada, e mesmo que se apercebesse, que importava? Depois de uma certa hesitação, decidiu-se:     

- Está bem, eu aceito. Amanhã já o procuro, ele está doidinho por mim, não vai ser difícil trazê-lo para a garagem.

- Menina bonita, assim é que é falar.

     Tirara-lhe um peso enorme da consciência. Dali a uns meses punha-se a andar, nem sequer a avisava. Que ficasse ela, o pimpolho, o choninhas, toda aquela gente analfabeta e rural. Ele era um homem da cidade, um cavalheiro, pertencia a outro patamar social. Por outro lado, tinha imensas ambições: pretendia fazer um doutoramento, chegar ao Supremo Tribunal de Justiça, ter um nome prestigiado na ciência do Direito. Fora bom tê-la na cama, ensinara-lhe tudo que sabia sobre a arte do prazer, ela até lhe devia estar agradecida por esses ensinamentos. Ficara quase mestra na ciência do amor libertino.         

     No dia seguinte, tal como ficara planeado, a Lina foi fazer algumas compras às lojas do Terreiro e no regresso veio pela Rua Direita, pelo sítio onde costumava estar o Mário, o tal que estava perdido de amores por ela. Ele dirigiu-lhe a palavra, sabendo de antemão que não obteria qualquer resposta.

- Bom dia, Lina. Hoje estás muito bonita. Cada dia que passa gosto mais de ti.

     Olhava-a com ternura, com aqueles olhos quase saídos das órbitas, cabelo super penteado, os pêlos da face a começarem a aparecer.

- Tens de cortar essas cerdas da cara – observa ela, a brincar, a fim de iniciar conversa.

     Ele arregalou os olhos, não contava que ela lhe falasse. O que teria acontecido? Um milagre?

- Pois é, tenho de comprar lâminas; a barba começa a dar sinais de vida.  

- E podes deixar crescer o bigode, é capaz de assentar bem no teu rosto.

- Achas? Nesta carinha tão magra, esquelética!

- Tu até não és feio, precisas é de engordar um bocadinho.

     Começa a aparentar um certo nervosismo, olha-o nos olhos e diz-lhe:

- Logo à noite queres aparecer? O Senhor Doutor Juiz deita-se cedo, vai sempre, depois do jantar, ler um livro, e assim podemos conversar um pouco.

- E o cão? Olha que não é para brincadeiras!

- Eu sei, mas já me conhece bem; pessoa que esteja comigo ele não ladra.

- Então fica combinado: estarei no portão por volta das dez.  

     Despediram-se com um olhar meigo. Ele, logo que se afastou, deu pulos de contente. Nem sequer acreditava no que lhe estava a acontecer – parecia até um milagre. Namorar com a Lina era um sonho que já durava havia algum tempo, mas pensava que jamais se transformaria em realidade. Por ela tudo faria – até arranjar trabalho! Tinha de a merecer, não podia ser um zé-ninguém, estar a viver à custa dos irmãos. Os seus pais já tinham falecido, ficara órfão aos seis anos. Dirigiu-se a casa e, logo que entra, a irmã acusa-o:

- Então! O “fidalgo” ainda não arranjou emprego? Tem quem o sustente, não é? A boa vida é melhor do que o trabalho, pois claro.

     Correram-lhe duas lágrimas pela face. Todos os dias tinha de ouvir um sermão dos manos, mas ele não tinha culpa de nada. Não queria andar nas obras, trabalho duro e mal remunerado, mas também não podia arranjar emprego público, pois só conseguira fazer a terceira classe. Ainda tentara aprender o ofício de sapateiro, mas nada lhe pagavam, era de graça, e muito lhe exigiam. Aqueles patrões sempre zangados, autoritários, gostavam imenso de mandar, dar ordens a torto e a direito, mas não entregavam um tostão em troca. Ainda lhe diziam que devia estar agradecido, pois estavam a ensinar-lhe um ofício. Mas o que é que lhe ensinavam? A endireitar as tachas, a engraxar uns sapatos, a coser uns chanatos, a consertar umas botas cheias de porcaria, com cheiros nauseabundos, insuportáveis! Todo o serviço interessante e limpo fazia-o o mestre. Virou-se para a irmã e informou-a, em modos de pergunta:

- Sabes que os dois filhos mais velhos da senhora Teresa vão para o Brasil?

- Onde teriam arranjado o dinheiro para o barco? – perguntou ela.

- Parece que foi um tio que lhes mandou a carta de chamada e o dinheiro para as passagens. Quem me dera também ir.

- Tu?! Nós não temos parentes ricos no Brasil. Só se fosses a pé! Por outro lado, com o teu apetite pelo trabalho, corriam logo contigo. Ainda te levavam para a selva, para junto dos índios. Mas nem esses te queriam – só tens ossos! 

- Tu brincas, mas eu, se me apanho lá, até conseguia enriquecer. Juro-te! Não vês o senhor Chico da Calçada, veio rico de lá; já comprou uma linda vivenda e uma quinta. E o que era dantes? Um simples agricultor, os pais eram caseiros em Galvão de Riba.

- Mas há quem diga que trabalhou como um escravo, anos a fio. Tu és fidalgo, e calaceiro, não gostas de vergar a espinha. Também, com esse corpo de raquítico, logo quebravas as molas!

- Isso é o que tu dizes, eu sou forte, ainda to hei-de provar.

- Está bem, está bem, léria não te falta, mas isso não enche a barriga a ninguém. Olha, vai mas é à horta apanhar umas couves para o caldo verde. E traz também umas cebolas e tomate. E não demores.

     O Mário partiu a correr, o tempo caminhava velozmente. Por volta das dez tinha de estar no portão do Senhor Juiz, as namoradas não gostam de esperar. A horta ficava ali a dois passos. Colheu tudo o que a irmã lhe pedira e voltou para casa. Depois de comer uma boa tigela de caldo, com um bocado de toucinho, broa e chouriço lá dentro, saiu apressadamente. Desceu as escadas das muralhas antigas, foi pela avenida, ainda em construção, olhou para o portão, mas a moça ainda lá não estava. Via-se luz na cozinha. Devia estar a arrumar a louça. Logo a seguir a luz sumiu-se. Um vulto desceu as escadas da casa, falou com o cão, com certeza prevenindo-o da chegada de alguém estranho, e logo a seguir dirigiu-se para o exterior. O apaixonado desceu os cinco ou seis degraus que separavam a avenida do portão, e espera que ela o abra. Havia um luar quase apagado, sem brilho, a lua não estava nas suas noites. Ela abriu o metálico portão, o qual rangeu, lamuriento, e logo o viu:

- Ainda bem que vieste. O Senhor Doutor já se deitou. Agora só sai do quarto de manhã. Estamos à vontade.

- Tu sabes que eu gosto de ti há imenso tempo, mas sempre me rejeitaste, eu até já perdera a esperança de um dia vires a ser minha.

- Eu gosto muito de ti, mas como sou nova não estava interessada em namorar, foi só por isso.

- Ainda bem que mudaste de opinião, eu ia ficando doido por tua causa.

- O melhor é entrares; aqui pode alguém ver-nos, e depois já sabes, é um falatório dos diabos. O Senhor Doutor Juiz corria logo comigo. // (continua...)

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

ESCRITOS SOBRE MELGAÇO
 
Por Joaquim A. Rocha







ARROZ DE PARDAIS

 

     Vila de Melgaço. Corria o mês de Setembro de 1954. As aulas na escola primária ainda não se tinham iniciado. Já se começava a notar o tempo mais fresco e as nuvens cinzentas anunciavam as primeiras chuvas de um outono que se aproximava a passos de gigante. O Lingrinhas, rapaz moreno e seco de carnes, de fisga sempre pronta a disparar, rondava a passarada. No dia seguinte à feira o chão da avenida das tílias ficava cheio de detritos que as aves, sobretudo os pardais, meticulosamente remexiam, a fim de encontrarem algum alimento. Por debaixo daquele castanheiro secular, de castanhas miúdas, com raízes encostadas à muralha medieval, as aves pululavam: lavandiscas, pombas, melros e numerosos pardais.

     O Lingrinhas, na época das castanhas, gastava as suas pedras a atirar ouriços abaixo. A proprietária surgia, furiosa: - «Patifes, malandros, o castanheiro tem dono!» O moço, com meia dúzia de castanhas na mão (os bolsos estavam quase sempre rotos devido às pedras que lá metia), fugia a bom fugir. Como corria que nem uma lebre, não não havia perigo. As castanhas que ele mais adorava eram as do outro castanheiro, um bocadinho mais acima. Que pena estar tão próximo das casas. Esse sim: dava umas castanhas grandes e bonitas! Porém aí as coisas fiavam mais fino. As pedras iam bater no telhado, nos vidros das janelas, ou nas garrafas dos pirolitos perfiladas no terraço à espera de serem cheias. Apesar das dificuldades os rapazes espreitavam a ocasião e zás! – uma fisgada, dois ouriços em terra, castanhas na mão e «ai pés para que vos quero!» Os dois filhos do proprietário, João e Sílvio, dono também da fábrica de refrigerantes, apareciam aparentemente zangados: - «Escusam de fugir que nós sabemos quem vocês são; não perdem pela demora.» O Lingrinhas, ao ouvir isto, ficava aterrorizado. Do mais novo não tinha medo, era um paz de alma, não fazia mal a uma mosca; mas o mais velho, esse era temido. Alto, forte, com uma voz de trovão, assustava a valer. O castigo que ele aplicava mostrava-se exemplar: tinham de ajudá-lo a carregar e a descarregar a camioneta. No final dava, aos rapazes, gasosas e esferas de vidro, os conhecidos berlindes. Estavam feitas as pazes. O Lingrinhas ficava com as mãos e os braços doridos, mas feliz por ter feito qualquer coisa de útil.

     Nesse domingo de Setembro o Lingrinhas não levou a fisga. Queria apanhar pardais, muitos pardais, com ratoeiras para ratos. Que trabalho para as conseguir! Não é que fossem caras, isso não! O problema consistia em arranjar o dinheiro suficiente para as comprar. O rapaz, com a sua imaginação prodigiosa, resolvera o assunto: nos dias de feira, entre Junho e Agosto, ia buscar água à Fonte da Vila com uma bilha, espremia para dentro da água um limão, duas pitadas de açúcar amarelo, e pronto: o refresco estava completo! Cinco tostões cada copo. Quando o calor apertava, a bilha esgotava depressa, de contrário, andava todo o dia para esvaziar uma! Com o dinheiro ganho pôde comprar as ditas ratoeiras. Primeiro experimentou junto das tílias – só apanhou dois! Resolveu então armá-las debaixo do castanheiro de castanhas miúdas. Aí sim, apanhou mais nove!                 

     Tinha ido para lá às seis da manhã; de noite sonhara com pardais e ratoeiras. No sonho aparecia a mãe, a quem ele pedia: - «Mãe: quero um arroz de pardais bem feito, como só tu sabes fazer; eu depeno-os.» - «Está bem, meu filho, está bem; mas repartes com o teu padrasto, ele gosta muito desses pitéus.» - «Fica descansada, dou-lhe três ou quatro, o resto fica para mim e para ti, vou-me empaturrar!»    

     Ainda não acordara totalmente e já estava a vestir as calças remendadas, a colocar o cinto de corda, a enfiar pelo magro corpo a velha camisola, que já tinha pertencido a duas ou três pessoas, e a calçar as velhas sandálias oferecidas por um carabineiro. Agarrou um bocado de broa, mais rija do que uma pedra, e desapareceu velozmente pelas escadas de madeira, que rangeram dolorosamente à sua passagem. A mãe apercebeu-se de tudo, mas via o filho tão eufórico que não ousou dizer fosse o que fosse.

     Eram nove e meia quando voltou da caçada. Vinha radiante. Onze passarinhos. Que rica arrozada! Solicitou à mãe que pusesse água ao lume. Impaciente, nem esperou que fervesse. Depenou as aves, todas elas gordinhas, e pô-las em cima da pesada masseira. - «Aqui estão elas; podes cozinhar o arroz.» A mãe, conivente, pediu-lhe: - «Vais a casa da vizinha Isaulinda e compras alface, cebolas e vinho. Não te demores» - «Vou num pé e venho noutro.» - disse ele com entusiasmo.      

     Enquanto a progenitora preparava o magnífico almoço, o Lingrinhas foi jogar a bola para a avenida. A GNR não permitia, mas que diabo: a malta tinha de jogar em algum lado! Até se esqueceu da arrozada! O jogo era importante, se era: Carvalhiças contra a Vila. Nas Carvalhiças havia jogadores fora de série; do lado oposto, O Lingrinhas, o Alemão, O Pirata, e outros, também não lhes ficavam atrás. Seria um verdadeiro jogo de campeonato! A bola era, sem dúvida, o seu fraco: por ela esquecia tudo!

     Logo que termina o “derby” corre para casa esbaforido: - «Então o nosso arrozinho?» - pergunta com ansiedade. - «Só agora?!» - interroga-o a mãe, preocupada. - «O teu “tio” estava com uma fome de lobo e já começou a comer; nem sei se sobrou alguma coisa; eu nem os provei, só comi arroz.» O Lingrinhas destapou o tacho sofregamente e qual não foi o seu espanto ao verificar que apenas um pardalinho tinha resistido aos dentes do bruto. Encarou-o com ódio: - «Seu filho duma cabra! Seu bruxo mau! Devia rebentar como um sapo! À minha custa não comerá mais pardais, só se for veneno!» - e despejou sobre a mesa o que restava do manjar tão apetecido.     

     Saiu porta fora, chorando de raiva. Rogar-lhe-ia pragas até vê-lo caído na valeta, odiá-lo-ia toda a vida, jamais lhe perdoaria.

     O tempo passou. O velho guloso morreu, a mãe do Lingrinhas também, mas ele, embora tenha perdoado, não esqueceu o burlesco episódio. Afinal de contas, era somente um arroz de pardais.

 

Artigo publicado em A Voz de Melgaço n.º 1029, de 15/5/1995.

domingo, 3 de dezembro de 2017

POEMAS DO VENTO
 
Por Joaquim A. Rocha
 
 
 
 
GERINGONÇA

(II)

 

 
Geringonça fez dois anos,

Fez dois anos geringonça;

Os benefícios e danos

Já pesam mais do que a onça.
 

São já vinte e quatro meses

À espera de milagres,

Mil discursos, entremezes,

De Melgaço até Sagres.
 

Caiu dinheiro do céu,

Melhoraram as pensões,

Ao Afonso e ao Abreu

Aumentaram dez tostões!
 

O ordenado cresceu

Tal como a erva daninha,

Aventuras de Teseu,

A fortuna da tainha.
 

 À sombra do orçamento

Viu-se o “mínimo” trepar;

Mas não chegou ao seis cento,

O patrão vai adorar.
 

À sede vamos morrer

Neste Portugal hodierno;

Não há água pra beber,

Isto parece o inferno!
 

Só vejo gente a chorar,

Pedir chuvinha ao céu;

Só nos resta implorar:

«Venha a nós o escarcéu
 

Não há vento não há chuva

Só calor e mais calor;

Seca azeitona, a uva,

As nozes mirram de dor.
 

A castanha não cresceu

Diz-se, por causa da dita;

A água-pé esmoreceu,

Cheia de mágoa, desdita.

 
Incêndios na floresta

Crescem cem todos os anos;

Para uns é uma festa,

Para outros são mil danos.

 
A culpa morre solteira,

Foi fulano ou sicrano;

Parece mais brincadeira

Do maganão zé beltrano.

 
Acusa-se a natureza,

Acusam incendiários;

Não se sabe com certeza,

Devem ser os mercenários.

 
A polícia judiciária

Vai prendendo os suspeitos,

Mas a canalha alimária

Para tudo tem seus jeitos.

A culpa é de São Pedro
que nos fechou a torneira;
foi iludido por Fedro,
num dia de borracheira.

 
Vamos esperar outro ano,

Esquecer este verão,

Pedir ao bom deus Vulcano

Que não queime o lusitano,

Leve o fogo prò vulcão.

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

OS NOVOS LUSÍADAS
(tentativa de continuação de «Os Lusíadas» de Camões)
 
Por Joaquim A. Rocha






Prólogo
(continuação)

9

Acordemos em nós toda a energia,

Há mil anos em paióis acumulada;

Enchamos os pulmões de maresia,

Fora com a preguiça entranhada.

Que a noite dê lugar a novo dia,

Levando as trevas na vil enxurrada.

Acorda português! Acorda e diz

Se neste mundo alguém é mais feliz.

 
10
 

Se queremos de novo ganhar fama,

Recuperar os louros perdidos,

Abandonemos a macia cama,

Os mil alimentos desmerecidos.

Pois a barriga e o prazer nos trama,

E todos os eventos mui garridos.

Voltemos rápido à faina dura,

Para que haja outra vez fartura.

 
11
 

Chovam coriscos, neves glaciares,

Venha Aníbal com seus elefantes,

Surjam habitantes de outros mares;

Nós opor-lhe-emos nossos infantes.

Venham seres estranhos de outros ares,

Com corpos de anões, ou de gigantes,

Mas não venham tais seres fazer guerra,

Antes tragam paz a esta linda Terra.

 
12

 
Fujamos, lusos, da vil situação

De criaturas sem eira nem beira;

Digamos não à vã resignação

Que nos tem seguido a vida inteira.

Sejamos um povo forte, a nação,

Que assombre o mundo, a gente alheia.

Purifiquemo-nos – sal da virtude –

Façamos da honra única atitude.

 
13

 
Estudemos a História Nacional,

Aprendamos a reconhecermo-nos;

Sem esquecer a outra, Universal.

Da nossa, tão bela, orgulhemo-nos;

Abandone-se a estrada do mal,

Por esse caminho nós perdemo-nos.

Humildes, sem do orgulho abdicar;

Grandiosos, sem grandezas de cegar.

 
14

 
Amemos a língua portuguesa,

Orgulho de nossos antepassados;

Mais poderosa do que a inglesa,

Própria para cantar nossos fados…

Rivaliza com a fala francesa,

Porque brotou nos mesmos verdes prados.

Qualquer língua, mesmo a alemã,

À beira da nossa é quase irmã.




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VENDA DE LIVROS DO AUTOR

DICIONÁRIO ENCICLOPÉDICO DE MELGAÇO, I                                           10 euros
DICIONÁRIO ENCICLOPÉDICO DE MELGAÇO, II                                          10 euros          
LINA - FILHA DE Pà                                                                                            10 euros
OS MEUS SONETOS (e os do frade)                                                                      10 euros
OS NOVOS LUSÍADAS                                                                                          11 euros

Nota: estes preços (somente para Portugal continental) já incluem as despesas de envio. Os pedidos devem, ou podem, ser feitos através do e-mail  joaquim.a.rocha@sapo.pt

terça-feira, 28 de novembro de 2017

DICIONÁRIO ENCICLOPÉDICO DE MELGAÇO
 
Por Joaquim A. Rocha








CASA DE PARANHÃO

     
     Estas casas fidalgas, ou afidalgadas, eram mandadas construir por famílias com algumas posses, sobretudo famílias com médias ou grandes quintas agrícolas e montes com matos, pinheiros, carvalhos e outras árvores, permitindo aos seus senhores alguns rendimentos, pois até ao século XX os caseiros não eram pagos com dinheiro, mas sim com uma pequena parte daquilo que a terra produzia. Os chamados fidalgos do Minho não tinham títulos de nobreza, não eram duques, condes ou marqueses, um ou outro era barão ou visconde. Na literatura portuguesa existem vários livros falando dessa gente: como viviam, os seus vícios e pecados, as suas virtudes e fragilidades. Autores como Camilo Castelo Branco, Júlio Dinis, e tantos outros escreveram belas páginas sobre este assunto. A Casa de Paranhão foi erguida no lugar de Paranhão, freguesia de Penso, concelho de Melgaço. Em 1808 pertencia a Domingos Esteves Cordeiro e a sua mulher, Francisca Domingas Esteves Cordeiro. Nesse ano, a 25 de Janeiro, um filho deste casal, Domingos Joaquim Esteves Cordeiro, casou na igreja de Penso com Maria Caetana Alves, filha de Domingos Alves e de Maria Lina (ou Maria Luísa) Álvares de Magalhães, da Casa do Crasto (*); (ver “O Meu Livro das Gerações Melgacenses”, volume II, página 119, de Augusto César Esteves). // Uma filha de Domingos Joaquim Esteves Cordeiro e de Maria Caetana Alves, ou Álvares de Magalhães, de seu nome Maria Teresa Esteves Cordeiro, casou na igreja de Penso, a 14/7/1856, com Manuel Luís Gonçalves, filho de Manuel António Gonçalves e de Caetana Rodrigues Vilarinho, do lugar de Telhada Grande, freguesia de Penso. // João Esteves Cordeiro, desta Casa, gerou em Rosa Lourenço, sua conterrânea, uma menina, Ernestina Esteves Cordeiro, que nasceu a 14/12/1881, que perfilhou, a qual veio a casar a 11/2/1899 com João Eugénio da Costa Lucena, natural da cidade de Lisboa; um dos filhos deste casal teve uma ourivesaria na Praça da República, vila de Melgaço, depois de 1950, salvo erro. /// (*) Noutro lado aparece como Casa do Campo.

domingo, 26 de novembro de 2017

GENTES DE MELGAÇO
(micro biografias)
 
Por Joaquim A. Rocha





Casa fidalga de Galvão - vila de Melgaço



CASTRO, Maria Pia. Filha de Gaspar Pereira de Castro, proprietário, natural de Fontoura, Valença, e de Ana Margarida de Sousa e Castro, da Casa de Galvão, Melgaço. Neta paterna de Gaspar Pereira de Castro e de Antónia Micaela de Castro; neta materna de Diogo Manuel de Sousa e Castro e de Maria Bebiana de Abreu Cunha Araújo. Nasceu em SMP (vila de Melgaço) a 12/10/1863 e foi batizada na igreja a 19 desse mês e ano. Padrinhos: Luís de Sousa Gama, governador militar da praça de Melgaço, e Margarida Carolina de Sousa e Castro, solteira. // Devia ter nobres sentimentos, bom coração, pois a 30/6/1887 tomou conta de uma menina muito pobre, Justina Rosa Gonçalves, a qual terminara o tempo do hospício (ver, no Dicionário Enciclopédico de Melgaço, a Casa da Roda). // Em 1913 alguém a acusou de dano, e o juiz da comarca despachou nesse sentido, mas o advogado dela apelou para a Relação do Porto que deu provimento ao agravo por ela interposto (Correio de Melgaço n.º 50, de 19/5/1913). // Casou em 1916 com Francisco Pereira de Sousa, natural de Labrujó, Ponte de Lima, contador do juízo de direito na comarca de Melgaço (Correio de Melgaço n.º 210, de 6/8/1916, e Correio de Melgaço n.º 211). // Enviuvou a 14/2/1919. // Fez doação, com reserva de usufruto enquanto estivesse viva, da Quinta e Casa de Eiró, que herdara de seu marido, ao hospital da Santa Casa da Misericórdia de Melgaço, para ali se instalar um hospício, ou asilo, para pessoas inválidas e pobres; era a vontade do defunto marido e de seu cunhado, o médico Dr. António Pereira de Sousa (Jornal de Melgaço n.º 1257, de 10/8/1919). Devido a essa doação o professor Sá Vilarinho escreveu o seguinte poema, publicado no Jornal de Melgaço n.º 1269, de 2/11/1919: «Bendita senhora/que sois protetora/do triste ancião;/bendita sejais/que aos pobres dais/agasalho e pão./Mil vezes bendita/porque da desdita/do desventurado/sois vós a primeira/que na vila inteira/vos haveis lembrado./Ai! Como eu queria/ser também, Maria,/companheiro teu,/da tua cruzada,/santa, abençoada,/por crente e ateu./E poder gozar/o prazer sem par,/o prazer que têm/os bons e os santos,/que enxugam prantos,/que só fazem bem./Mas, de cada dia,/ganho o pão, Maria,/não posso senão/dar aos velhos pobres,/plebeus ou nobres,/só o coração./Ser rica e nobre/para dar ao pobre,/é bela a riqueza,/mas dar aos velhinhos/são os pergaminhos/da maior nobreza./Que o asilo teu/que te leva ao céu/seja já aberto,/para receber/os que de morrer/já se acham perto./Não deixeis de ouvir/este meu pedir,/feito de joelhos;/Dai em vossa vida,/dai-lhes a guarida/aos pobres velhos.» // Faleceu na Casa de Galvão a 25/11/1935. // Sem geração.